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29/01/2020 12:43:26

Entenda por que a internet está se desintegrando


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INTERNACIONAL

Entenda por que a internet está se desintegrando

Sombra de pessoa sobre códigos de programação

Rússia e China começaram a falar publicamente sobre uma 'internet soberana' por volta de 2011

Em 1648, foi assinada uma série de tratados conhecidos em conjunto como Paz de Vestfália, encerrando 30 anos de guerra na Europa e levando ao surgimento dos Estados soberanos. O direito estatal de controlar e defender seu próprio território tornou-se a base fundamental de nossa ordem política global e permaneceu inconteste desde então.

Em 2010, uma delegação de países - incluindo a Síria e a Rússia - chegou a uma obscura agência das Nações Unidas com um pedido estranho: levar essas mesmas fronteiras soberanas ao mundo digital.

"Eles queriam permitir que os países atribuíssem endereços de internet fossem atribuídos país por país, da mesma forma que os códigos de país eram originalmente designados para números de telefone", diz Hascall Sharp, consultor de política digital que era na época diretor de políticas da gigante de tecnologia Cisco.

Depois de um ano de negociações, o pedido não deu em nada: criar tais fronteiras teria permitido que as nações exercessem rígido controle sobre seus próprios cidadãos, contrariando o espírito aberto da internet como um espaço sem fronteiras, livre dos ditames de qualquer governo individual.

Quase uma década depois, esse espírito parece uma lembrança antiga. As nações que saíram da ONU de mãos vazias não desistiram da ideia de colocar uma parede ao redor do seu canto no ciberespaço. Elas simplesmente passaram a última década buscando formas melhores de tornar isso uma realidade.

A Rússia já explora uma nova abordagem para criar um muro de fronteira digital e aprovou dois projetos de lei que exigem medidas tecnológicas e legais para isolar a internet russa. O país faz parte de um número crescente de nações insatisfeitas com uma internet construída e controlada pelo Ocidente.

Embora os esforços russos dificilmente sejam a primeira tentativa de controlar quais informações podem e não podem entrar em um país, sua abordagem representa uma mudança em relação ao que foi feito no passado.

"As ambições da Rússia vão mais longe do que as de que qualquer outro país, com as possíveis exceções da Coreia do Norte e do Irã, no sentido de fraturar a internet global", diz Robert Morgus, analista de segurança cibernética do centro de estudos americano New America Foundation.

Protesto na Rússia

As políticas de internet cada vez mais restritivas da Rússia provocaram protestos em todo o país

A abordagem da Rússia é um vislumbre do futuro da soberania na internet. Hoje, os países que buscam o mesmo não são mais apenas os suspeitos autoritários de sempre - e estão fazendo isso em níveis mais profundos do que nunca.

Seu projeto é auxiliado tanto pelos avanços da tecnologia quanto pelas crescentes dúvidas sobre se a internet aberta e livre foi uma boa ideia. Os novos métodos abrem a possibilidade não apenas de países construírem suas próprias pontes levadiças, mas também de alianças entre países que pensam da mesma forma para criar uma internet paralela.

O que há de errado com a internet aberta?

É sabido que alguns países estão insatisfeitos com a coalizão ocidental que tradicionalmente dominou a governança da internet.

Não são apenas as filosofias defendidas pelo Ocidente que os incomodam, mas o modo como essas filosofias foram incorporadas na própria arquitetura da rede, que é famosa por garantir que ninguém possa impedir que alguém envie algo a outra pessoa.

Isso se deve ao protocolo-base que a delegação que foi à ONU em 2010 tentava contornar: o TCP/IP (protocolo de controle de transmissão/protocolo de internet) permite que as informações fluam sem nenhuma ressalva quanto a geografia ou conteúdo.

Não importa qual informação esteja sendo enviada, de que país ela esteja vindo ou as leis do país que vai recebê-la. Tudo o que importa é o endereço de internet ao final da comunicação. É por isso que, em vez de enviar dados por caminhos predeterminados, que podem ser desviados ou cortados, o TCP/IP envia pacotes de informações do ponto A ao ponto B por qualquer via necessária.

É fácil rejeitar objeções a essa configuração como os gritos agonizantes de regimes autoritários em face de uma força global de democratização - mas os problemas que surgem não afetam apenas eles. Qualquer governo pode se preocupar com códigos maliciosos como vírus chegando a instalações militares e redes de água e energia, ou com a influência de notícias falsas sobre o eleitorado.

Tentativa russa de isolamento

A Rússia está, portanto, trabalhando em um método híbrido que não depende inteiramente de equipamentos nem de programas - em vez disso, manipula o conjunto de processos e protocolos que determinam se o tráfego da internet pode se mover de sua origem para o destino pretendido.

Os protocolos da internet especificam como todas as informações devem ser tratadas por um computador para serem transmitidas e roteadas pelos cabos globais. "Um protocolo é uma combinação de diferentes coisas - como dados, algoritmos, endereços de IP", diz Dominique Lazanski, que trabalha na governança da internet e presta consultoria sobre desenvolvimento de seus padrões.

Um dos mais fundamentais é o padrão DNS - o catálogo de endereços que informa à internet como traduzir um endereço de IP, por exemplo, 38.160.150.31, para um endereço de internet legível como o bbcbrasil.com, e aponta o caminho para o servidor que hospeda esse IP.

É no DNS que a Rússia está mirando. O país previa testar em abril uma forma de isolar o tráfego digital de todo o país, para que as comunicações via internet por seus cidadãos permanecessem dentro dos limites geográficos do país, em vez de percorrer o mundo.

O plano - que foi recebido com ceticismo por grande parte da comunidade de engenheiros - é criar uma cópia dos servidores de DNS da Rússia (a lista de endereços atualmente sediada na Califórnia) para que o tráfego dos cidadãos fosse dirigido exclusivamente para sites russos ou versões russas de sites externos. Isso enviaria os russos para o buscador Yandex se quisesse acessar o Google, ou a rede social VK em vez do Facebook.

Para estabelecer as bases para isso, a Rússia passou anos promulgando leis que forçam empresas internacionais a armazenar todos os dados dos cidadãos russos dentro do país - levando algumas empresas como a rede LinkedIn a serem bloqueadas ao se recusarem a cumprir isso.

"Se a Rússia tiver sucesso em seus planos de um DNS nacional, não haverá necessidade de filtrar informações internacionais. O tráfego de internet russo nunca precisá sair do país", diz Morgus, analista da New America Foundation.

"Isso significa que a única coisa que os russos - ou qualquer um - poderiam acessar de dentro da Rússia seria a informação que está hospedada dentro da Rússia, em servidores fisicamente presentes no país. Isso também significaria que ninguém poderia acessar informações externas, seja isso dinheiro ou o site da Amazon para comprar um lenço."

A maioria dos especialistas reconhece que o principal objetivo da Rússia é aumentar o controle sobre seus próprios cidadãos. Mas a ação também pode ter consequências globais.

Governos que buscam ter 'soberania digital' precisam achar uma forma de controlar quais informações entram no país sem bloquear transações econômicas

O Google está trabalhando fornecer uma internet aberta no Ocidente e um mecanismo de busca com censura no Oriente. "Suspeito que sempre haverá uma tensão entre os desejos de limitar a comunicação, mas não limitar os benefícios que a comunicação pode trazer", diz Conrad.

Sejam as fronteiras da informação elaboradas por países, coalizões ou plataformas globais de internet, uma coisa é clara: a internet aberta com a qual seus criadores sonharam já acabou. "A internet não tem sido uma rede global há muito tempo", diz Lazanski.

OBS: Matéria da BBC NEWS Brasil. Artigo completo pelo link: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-48849540

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