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13/08/2026 09:18:58

O elo mais fraco do 'tarifaço': novas taxas dos EUA podem sufocar o pequeno exportador


Com menor capacidade financeira para absorver as novas tarifas, pelo menos 11,5 mil MPEs serão afetadas pelas barreiras comerciais americanas segundo dados do Sebrae, e terão de diversificar mercados para encontrar novos destinos para seus produtos

 

O elo mais fraco do 'tarifaço': novas taxas dos EUA podem sufocar o pequeno exportador

 

O impacto das novas tarifas de 25% e a adicional de 12,5% sobre exportações brasileiras para os EUA deverão atingir em cheio os pequenos negócios exportadores brasileiros. Ao contrário de grandes corporações, as micro e pequenas empresas (MPEs) enfrentam muitas restrições de fluxo de caixa para absorver sobretaxas e renegociar contratos comerciais internacionais de curto prazo.

Embora o debate macroeconômico foque nas perdas bilionárias das grandes indústrias, um impacto importante ocorre na base da pirâmide produtiva. Das cerca de 28 mil empresas afetadas pelas barreiras comerciais americanas, 11,5 mil são pequenos negócios, de acordo com dados do Sebrae. Para elas, a sobretaxa não representa apenas perda de margem de lucro, mas o risco real de insolvência.

As MPEs são 40% das empresas exportadoras brasileiras, mas ainda representam uma fatia pequena do faturamento total das exportações nacionais. Custos indiretos e o custo Brasil ainda são os principais obstáculos para o seu crescimento no comércio exterior. Os setores mais fortes dessas exportadoras são vestuário feminino, como biquinis, calçados e componentes, além de acessórios de couro.

Na indústria química, resinas plásticas, solventes e insumos químicos industriais. Produtos de decoração, móveis e peças de madeira, materiais elétricos, ferramentas especializadas, cosméticos, produtos de perfumaria e produtos alimentícios, como cafés especiais, entre outros, completam a lista. Apesar da diversidade de produtos exportados, o principal comprador das MPEs exportadoras são os Estados Unidos. Fora isso, poucos produtos de nicho são exportados para países da América do Sul.

Cronicamente inviável?

De acordo com o Sebrae e a Agência Brasileira de Exportação e Investimentos (Apex), órgão do governo federal, existem algumas dificuldades crônicas como a cumulatividade de impostos e a burocracia para recuperar créditos fiscais, algo mais complexo e pesado para as MPEs do que para as grandes corporações. Outra desvantagem é a logística de escala, que exige investimentos elevados: como exportam volumes menores (fracionados), o frete interno e o custo portuário por unidade de produto tornam-se proporcionalmente muito mais caros.

Para reduzir os impactos das tarifas americanas, o governo, por conta do tarifaço e por meio de medida provisória (MP), está liberando R$ 18,2 bilhões em crédito subsidiado para as MPEs exportadoras e vários setores. A expectativa com essa liberação de linhas de crédito emergenciais é de contribuir para a manutenção do capital de giro das empresas prejudicadas.

Espera-se também flexibilizações tributárias em drawback (regime aduaneiro especial que suspende ou elimina tributos em determinadas situações), mas a procura por novos mercados e diversificação também devem fazer parte da estratégia das pequenas exportadoras.

Novas rotas 

Diante da necessidade de reduzir a dependência do mercado americano, a diversificação de destinos passa a ser uma alternativa para as pequenas exportadoras. Para conquistar novos clientes em rotas comerciais inéditas, o exportador brasileiro precisa considerar as características e exigências de cada mercado internacional. O sucesso da expansão global depende diretamente da capacidade da empresa de entender o perfil de consumo, e as regras específicas de cada região do mundo.

O bloco europeu, por exemplo, é conhecido por exigir regras rígidas de respeito ao meio ambiente e critérios socioambientais severos. Por isso, a região apresenta oportunidades para produtos diferenciados e de alto valor agregado. Entre os setores com maior potencial estão os alimentos orgânicos (como café e açúcar), o mel natural, os cosméticos baseados na biodiversidade amazônica e os móveis feitos de madeira certificada.

Já os países que compõem o bloco ASEAN, como Indonésia, Tailândia, Malásia e Vietnã, registram uma rápida urbanização e o crescimento acelerado da classe média. Esse cenário cria uma forte demanda por alimentos em larga escala, tornando a região um alvo estratégico para grandes produtores de commodities e alimentos processados.

Ainda pouco explorados por empresas ocidentais, mercados como o Cazaquistão e o Uzbequistão surgem como a nova fronteira para os exportadores. Esses países funcionam como eixos estratégicos de distribuição regional. Eles passam por intensos processos de modernização urbana e industrial, abrindo espaço para fornecedores de tecnologia, infraestrutura e bens de consumo.

A visão de quem vive o dia a dia do comércio exterior

Há mais de 30 anos no comércio exterior, a empresária Rita Campagnoli acumulou conhecimento e experiências para virar referência na área: sócia-diretora da Dahll Comércio Exterior, empresa importadora, exportadora e de consultoria em comércio exterior, Rita também atua como vice-presidente do CECIEx.

A empresária acredita que o tarifaço vai atingir em maior ou menor grau todas as empresas exportadoras. Ela destaca que, para as MPEs, o impacto será ainda maior pois já enfrentam gargalos internos, como o excesso de burocracia e as dificuldades logísticas.

“As empresas exportadoras terão que abrir novos mercados a partir de agora. Temos que considerar que o tarifaço significa a perda, ou pelo menos a redução das exportações para um mercado fundamental para o Brasil", afirma. Para ela, esse problema pode se tornar uma oportunidade, já que todos terão que intensificar o trabalho de prospecção por mercados alternativos. "É um esforço que deve ser ainda mais intenso para as pequenas empresas.”, afirma.

Rita também aponta que a redução de envios de produtos brasileiros para os EUA pode significar uma chance de expansão global, inclusive para as MPEs. “É aquela máxima que muito sabiamente diz que não devemos colocar todos os ovos na mesma cesta. Ou seja, é urgente iniciarmos um trabalho de diversificação dos mercados internacionais.”

Diante disso, ela considera que o governo brasileiro também precisa ajudar na relação na abertura de mercados. “O governo precisa ser mais rápido na consolidação de novos acordos que aproximem e viabilizem as exportações brasileiras. Já caminhamos bem com o acordo Mercosul–UE, e vemos boas perspectivas para ampliar tratados com Canadá, Japão, Singapura e a própria China, que tem muito interesse em investir na infraestrutura logística brasileira por conta do grande volume de commodities que importa do nosso país” afirma.

A empresária lembra, ainda, que entidades representativas do empresariado, como a ACSP, têm papel fundamental no direcionamento dos exportadores. “A ACSP, por meio da sua área de comércio exterior, tem promovido eventos e orientado as PMEs para indicar potenciais clientes internacionais, além de prepará-las para os trâmites burocráticos, alfandegários e logísticos que impactam diretamente sua rentabilidade", conclui.

Como impulsionar a diversificação 

A São Paulo Chamber of Commerce, braço de comércio exterior da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), e o Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras (CECIEx), vêm intensificando esforços para orientar os pequenos empresários brasileiros nas operações de comércio exterior

O assessor de relações internacionais da SP Chamber, Maurício Manfré, explica que a estratégia busca reduzir riscos e a dependência de um único mercado, incentivando a expansão rumo à América Latina, Europa, Ásia, Oriente Médio e África.

Para estruturar essa transição, as entidades promovem capacitações, rodadas de negócios e inteligência de mercado, com foco especial no apoio a pequenas e médias empresas. O assessor de RI fala sobre as ações em andamento: “O plano de expansão inclui missões comerciais programadas para a Argentina e o Paraguai, além de visitas à Arábia Saudita e à Jordânia, e a participação em grandes feiras europeias.”

Manfré também lembra que, em paralelo, a atuação foca no aproveitamento de tratados internacionais. “As instituições já preparam planos para facilitar o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu por meio do Acordo Mercosul–UE”, sinaliza, destacando também o início da vigência do acordo comercial entre Mercosul e Singapura, já que a São Paulo Chamber iniciou tratativas diretas com a embaixada do país asiático para transformar os termos do tratado em oportunidades reais de negócios, investimentos e parcerias.

Alternativas para o futuro

Neste cenário, ficou claro que MPEs exportadoras precisarão se reinventar, mesmo considerando a ajuda do governo e a diversificação de mercados que com certeza deverá abrir mais oportunidades no comércio exterior. O investimento e o uso das novas tecnologias também serão fundamentais e cada vez mais presentes nas soluções, assim como preocupação com a sustentabilidade para vencer barreiras globais. Ou seja, a adaptação rápida às plataformas digitais e o foco em produtos com critérios ESG definirão quem sobrevive e quem cresce no comércio internacional.



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