Setores como o de revestimentos cerâmicos ou de joias e pedras preciosas mantêm negociações ativas, em conjunto com organismos norte-americanos, enquanto tentam equilibrar suas operações no Brasil e fora dele

Um mês depois do anúncio de uma nova rodada de tarifas extras às importações brasileiras aos Estados Unidos, exportadores afetados mantêm as suas negociações na tentativa de reversão do quadro. Não apenas porque o passado recente mostra que tudo pode mudar muito rapidamente, mas porque, em determinados setores, a escolha pela diversificação pode não ser suficientemente viável do ponto de vista financeiro nem de tempo.
Um exemplo é o setor de gemas, joias, bijuterias e folheados. Estima-se que cerca de 80% das gemas produzidas pelo Brasil sejam direcionadas ao exterior, de acordo com o Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM). Embora o produto brasileiro já tenha sido vendido para 59 diferentes mercados até junho deste ano, e os embarques para os Estados Unidos tenham sofrido uma retração de 12% no período, ainda assim o país permanece o comprador mais importante para a categoria.
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“Reconhecemos com realismo que nenhum mercado substitui a liquidez e o volume dos EUA da noite para o dia. A nossa estratégia de diversificação para a Europa, Ásia e América Latina não busca milagres de curto prazo, mas sim a mitigação de riscos e a construção de resiliência”, afirma Clarissa Maciel, gerente do projeto Precious Brazil no IBGM. O programa é uma parceria do Instituto com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), visando a promoção comercial internacional do setor.
Cautela e persistência
De acordo com Maciel, com a intensificação de ações ao redor do mundo, espera-se um crescimento nas vendas somadas para a Europa, Ásia e América Latina, que pode chegar a até 12%, mas é preciso considerar o momento do mercado internacional. “O cenário global exige cautela: o consumo interno na Ásia segue em ritmo moderado e com compradores seletivos, enquanto a Europa enfrenta os reflexos do custo de vida e da inflação. Por isso, no curto e médio prazo, seria irrealista falar em substituição integral do mercado americano”, explica.
Paralelamente, o trabalho de defesa comercial segue sendo feito nos EUA. Além das ações com a ApexBrasil, com o monitoramento das deliberações do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (United States Trade Representative - USTR) e nas comissões do Congresso norte-americano, o IBGM, com o Precious Brazil, mantém estreita colaboração com a American Gem Trade Association (AGTA), a associação norte-americana do setor. O ouro e as gemas em estado bruto foram contemplados na lista de exceções, mas as gemas lapidadas e as joias não.
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“Existe um pleito ativo e focado para incluir as gemas coradas lapidadas avulsas (loose colored gemstones) na lista de exceções definitivas”, esclarece Maciel. O argumento técnico que embasa o pedido é que a indústria de joias nos EUA não possui capacidade fabril em escala para lapidar localmente. “Taxar a pedra lapidada pune a própria joalheria americana, encarecendo a matéria-prima sem proteger nenhum setor fabril local”, defende.
Prejuízo local
Os impactos negativos para o próprio mercado e os consumidores norte-americanos são também um forte argumento de outros setores punidos pelas tarifas. “Fizemos um esforço bastante grande para demonstrar claramente como as razões das tarifas são infundadas”, conta Sergio Wuaden, presidente do Conselho de Administração da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres (Anfacer) e managing director do grupo Lamosa no Brasil, detentor das marcas Roca Cerámica e Incepa.
A Anfacer não apenas apresentou estudos técnicos, como participou presencialmente com defesas orais durante as audiências públicas promovidas pelo USTR, e segue ativa na busca pela entrada na lista de exceções. “Cerâmica não tem absolutamente nenhuma relação com as bases para aplicação dessas penalidades”, ressalta Wuaden.
O executivo chama a atenção até para o impacto inflacionário dentro dos Estados Unidos, uma vez que a cerâmica integra a cadeia da construção civil, um segmento econômico altamente relevante para o país. Cerca de 70% dos produtos cerâmicos consumidos no mercado norte-americano são importados, e apenas 30% é fruto da produção local.
O Brasil, por sua vez, tem nos EUA seu principal destino de exportações do setor, o que se mantém, apesar das quedas consecutivas em 2025 e 2026 tanto em volume quanto em valor. Para se ter uma ideia dessa importância, enquanto os EUA respondem por algo em torno de 25% dos embarques do setor, o Paraguai, que é o segundo do ranking de compradores, adquire apenas 5%.
E, assim como acontece com outros segmentos, as cadeias também são integradas.
Incertezas brutais
A Lamosa é um grande exemplo disso. O grupo possui três plantas fabris no estado do Paraná, na região sul do Brasil, uma delas com 90% de sua produção dedicada apenas aos EUA. Por outro lado, a empresa também mantém seis centros de distribuição no território norte-americano. Com a implementação do custo extra tarifário, as quedas nos negócios foram brutais em 2025 e estavam se recuperando em 2026, até o novo anúncio de penalidades.
Agora, a incerteza sobre o futuro dos negócios dificulta a tomada de decisão. “Buscamos mercados alternativos, mas os desafios são grandes por conta dos volumes. Reino Unido, Bélgica e Holanda, por exemplo, figuram entre nossos destinos, mas as quantidades são muito inferiores. Além disso, o rearranjo da produção para atender outros países não é uma tarefa simples, nem rápida”, afirma Wuaden.
Segundo ele, muitos produtos são feitos especificamente para os EUA, sem demanda no Brasil, e a readequação do parque industrial para uma nova tipologia de produtos é um processo longo e que exige investimentos consistentes. “Essa instabilidade é o maior desafio para nós. Porque decidir mudar pode significar um esforço de 12 meses e altos aportes para, ao final, o cenário já ser outro.”
Brasil Soberano
Em 2025, a Lamosa acessou os recursos de crédito da primeira fase do Plano Brasil Soberano, programa de linhas de financiamento oferecidas pelo governo brasileiro para socorrer empresas de setores estratégicos prejudicadas pelo tarifaço. O grupo integrou uma das mais de 1,3 mil operações aprovadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dentro do programa.
De acordo com o banco, foram aprovados R$ 19,6 bilhões em recursos ao final do ano passado, correspondentes a 89% do que foi destinado. As micro, pequenas e médias empresas responderam por 982 operações e 32% do montante (quase R$ 6,3 bilhões). Já as grandes estiveram em 402 operações, com 68% dos recursos (R$ 13,3 bilhões). Dos valores aprovados, 55%, ou R$ 10,8 bilhões, foram efetivamente desembolsados até dezembro de 2025.
A segunda etapa do Plano, lançada este ano, com orçamento de R$ 21 bilhões, registrou R$ 19,5 bilhões em pedidos protocolados. Desses, R$ 10,6 bilhões foram aprovados até agora. No final do último mês de julho, foi lançada a terceira etapa do programa, com R$ 18,5 bilhões destinados.