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02/10/2026 09:00:34

De fornecedora a parceira: China ganha espaço na inovação e muda relação com empresas brasileiras


País asiático chega ao top 10 do Índice Global de Inovação e amplia o papel de sua indústria no desenvolvimento de produtos para o Brasil

 

De fornecedora a parceira: China ganha espaço na inovação e muda relação com empresas brasileiras

 

A relação de empresas brasileiras com fabricantes chineses, durante muito tempo, esteve associada principalmente à busca por produtos de menor custo. Esse modelo continua existindo, mas vem ganhando novas possibilidades. Segundo Jessé Guimarães, vice-presidente da Bracham Brazil-China Chamber of Commerce, empresas brasileiras passaram a acessar uma cadeia capaz de participar também de etapas como engenharia, configuração de produtos, prototipagem, desenvolvimento de componentes, software, design industrial e adaptações para o mercado brasileiro.

A mudança acontece em um contexto de forte expansão do comércio entre os dois países. As importações brasileiras provenientes da China passaram de US$ 30,7 bilhões em 2015 para US$ 70,9 bilhões em 2025, alta de aproximadamente 131%, segundo dados do Comex Stat, do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) compilados pelo Ipece (Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará). A participação chinesa nas importações totais do Brasil também aumentou: de 17,7% para 25,3% no período.

Mas o dado que ajuda a entender essa relação é a composição das compras. Em agosto de 2026, bens intermediários representaram 65,9% das importações brasileiras provenientes da China e bens de capital, 19,8%. Juntos, os dois grupos responderam por cerca de 85,7% das compras naquele mês. É uma fotografia de agosto, e não uma proporção para todo o ano, mas indica o peso de insumos, componentes, máquinas e equipamentos na relação comercial.

Da compra pronta ao desenvolvimento conjunto

A diferença está no grau de participação do fabricante. No modelo tradicional, a empresa brasileira escolhe um produto já existente no catálogo e compra. Em uma etapa intermediária, pode recorrer a OEM (original equipment manufacturer ou fabricante de equipamento original), private label (marca própria) ou ODM (original design manufacturer ou fabricante de design original), com alterações de marca, embalagem, componentes, funcionalidades ou configuração. No nível mais avançado, cliente e fabricante discutem as especificações técnicas e desenvolvem o produto em conjunto.

“Estamos passando progressivamente de colocar uma marca brasileira em um produto chinês para desenvolver na China um produto pensado para o mercado brasileiro”, afirma Guimarães. Segundo ele, a customização pode envolver itens como motor, bateria, eletrônica, software, materiais, dimensões, moldes, embalagem, conectividade e requisitos regulatórios.

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Esse movimento não significa que OEM, ODM e private label sejam novidades. Esses modelos existem na China há décadas, explica Guimarães. O que mudou, segundo ele, foi a escala, a sofisticação e, em alguns setores, o acesso de empresas menores a essas estruturas.

Os números ajudam a dimensionar essa abertura. Em 2015, 3.767 microempresas e MEIs brasileiros importaram da China. Em 2025, foram 12.586, mais de três vezes o número registrado dez anos antes. O valor importado por essas empresas passou de aproximadamente US$ 251,5 milhões para US$ 1,033 bilhão no mesmo período.

Ou seja, os dados podem não comprovar que essas empresas façam OEM ou private label, mas mostram que o acesso de pequenos negócios à cadeia chinesa aumentou.

China no top 10 da inovação

A mudança também está relacionada à transformação da própria indústria chinesa. A participação do país asiático na produção manufatureira mundial passou de 2,8%, em 1990, para aproximadamente 32%, em 2024, segundo dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), citados por Guimarães.

Para comparação, em 2024 os Estados Unidos respondiam por aproximadamente 15,0%, o Japão por 6,3%, a Alemanha por 4,6% e a Coreia do Sul por 3,3%.

O país também investiu RMB 3,926 trilhões (yuans chineses), o equivalente a cerca de R$ 3,048 trilhões, em pesquisa e desenvolvimento em 2025, crescimento de 8,1% sobre 2024, equivalente a 2,80% do PIB chinês.

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O Índice Global de Inovação 2025, elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), reforça esse cenário. A China ficou pela primeira vez entre as dez primeiras economias do ranking, na 10ª posição entre 139 economias.

O país se destaca ainda pela produção de conhecimento e tecnologia e concentra 24 dos 100 principais clusters de inovação do mundo. Entre eles está Shenzhen-Hong Kong-Guangzhou, que ocupou a primeira posição entre os clusters em 2025.

Para empresas brasileiras, essa concentração pode significar acesso a um ecossistema que reúne fabricantes, fornecedores de componentes, engenharia, ferramental, moldes, prototipagem, laboratórios e logística. Por isso, o preço continua sendo um fator, mas não é necessariamente o único. Qualidade, tecnologia, escala, velocidade, capacidade de customização, certificações e estabilidade do fornecedor também entram na decisão.

Quando a fábrica passa a fazer parte da inovação

A experiência da Marcopolo ajuda a mostrar como essa relação pode funcionar na prática. A empresa entrou no mercado chinês em 2001 e, ao longo dos anos, criou uma estrutura que passou por transferência de tecnologia, global sourcing, desenvolvimento de fornecedores, centro de desenvolvimento tecnológico e fabricação de componentes, sistemas para carrocerias de ônibus, carrocerias completas e ônibus totalmente montados para exportação.

Hoje, a operação chinesa também participa do desenvolvimento de tecnologias e de produtos para exportação. Segundo Hans Jorg Ehlers, Head da Marcopolo China, a unidade contribuiu para o desenvolvimento do primeiro ônibus da empresa movido a hidrogênio (célula a combustível) e da primeira plataforma totalmente elétrica. O centro de engenharia na China também trabalhou, em parceria com o Centro de Tecnologia no Brasil, em modelos de ônibus, sistema de monitoramento do motorista e retrovisores eletrônicos baseados em câmeras. Tecnologias de iluminação desenvolvidas nesse processo já foram incorporadas aos ônibus lançados no Brasil.

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A divisão de trabalho é feita em mão dupla. A equipe chinesa acompanha tendências e tecnologias no mercado local, enquanto a Marcopolo Brasil define o roteiro tecnológico. A operação chinesa busca e desenvolve fornecedores, e as especificações básicas são definidas no Brasil, com contribuições dos fornecedores incorporadas ao processo.

“Esse cenário mudou. Atualmente, a maioria dos produtos adquiridos na China resulta de desenvolvimentos específicos, realizados conforme as especificações da própria empresa”, afirma Ehlers. A operação chinesa é voltada à exportação e representa aproximadamente 2% da receita internacional da Marcopolo. No primeiro semestre deste ano, gerou R$ 28,9 milhões em receita.

E as marcas próprias?

Para empresas menores, a possibilidade de customizar produtos abre espaço para construir linhas próprias em vez de disputar apenas produtos semelhantes pelo menor preço. É o caminho que Gustavo Braz, CEO do Grupo PMD, identifica em sua experiência com ferramentas diamantadas.

Segundo Braz, a relação com fornecedores passou a envolver testes, escolha de materiais, adaptação de desempenho, desenho de embalagens, desenvolvimento de linhas próprias e adequação às características do consumidor brasileiro. “A indústria chinesa deixou de competir apenas pelo menor preço e passou a ocupar espaço como desenvolvedora de produtos, tecnologia e soluções específicas”, afirma.

Para o empresário, a possibilidade de discutir composição, desempenho, acabamento e posicionamento muda a natureza da importação. A fábrica deixa de ser apenas o lugar onde a mercadoria é comprada e passa a participar da estratégia de produto. Isso pode ajudar o distribuidor a criar uma linha exclusiva e reduzir a comparação baseada somente em preço.

O que avaliar antes de fechar o pedido

Quanto maior a customização, maior também a necessidade de controle. A Bracham recomenda verificar se a empresa chinesa é realmente fabricante ou uma trading, visitar ou auditar a fábrica, definir especificações e tolerâncias, aprovar amostras antes do lote comercial e estabelecer critérios de inspeção e qualidade.

Também é preciso deixar claro quem será dono dos moldes, desenhos, arquivos técnicos, software e firmware. Marca, patente e desenho industrial devem ser protegidos quando aplicável, e questões como exclusividade, território, assistência técnica, peças de reposição e alterações de componentes precisam ser definidas antes da produção.

É justamente nessa etapa que a busca pelo menor preço pode se tornar um problema. Como resume Braz, uma fábrica tecnologicamente avançada não é necessariamente adequada para qualquer operação. Lote mínimo, prazo, qualidade, propriedade dos moldes e capacidade de reposição precisam entrar na conta antes do pedido.

A ApexBrasil, consultada sobre a existência de dados específicos sobre empresas brasileiras que utilizam a China para desenvolver produtos sob marca própria, informou não dispor de levantamento ou casos confirmados com esse recorte.

O cenário, portanto, não significa que toda pequena empresa deva partir para o desenvolvimento próprio na China, mas mostra que o acesso a fabricantes capazes de participar dessa etapa também se ampliou para empresas médias e, dependendo do setor, para menores também, como resume Guimarães. A decisão, no entanto, passa a depender do produto, da escala, do investimento e, principalmente, da capacidade de administrar uma cadeia internacional de desenvolvimento e produção.

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